Raul, Brasília e Outra Passagens...

De passagem por Brasília nas férias de Dezembro, reencontrei um grande amigo que já não o via há mais de vinte anos. Assim como o Céu de Brasília (foto), o Raul é daquelas pessoas de quem se gosta a primeira vista. Sorriso largo e aberto, educado e atencioso. Desde os nossos tempos de escola, o Raul sempre foi um agregador. Daquelas pessoas que todos sentem prazer em estar com ele. Bom aluno, boa gente e com grande talento musical. Seu pai foi um dos grandes mestres do violão clássico e brasileiro e o seu irmão Jair é um guitarrista de primeira. Reencontrar um velho amigo depois de tantos anos e desfrutar de uma boa conversa foi uma grande felicidade.

Marcamos de nos encontrar no final da tarde para um "happy hour". Não tinha certeza se o reconheceria, principalmente porque os nossos cabelos já não são tão cumpridos. Mas só foi o Raul chegar e abrir aquele sorriso e tudo ficou mais fácil. É incrível como as nossas personalidades se moldam na infância e se consolidam na adolescência. Apesar do tempo, a fala mansa do Raul e a voz baixa e calma eram exatamente como no passado. Eu naquele tempo, um tímido convicto

Conversamos um pouco sobre as nossas vidas e caminhos, mas relembramos principalmente das nossas aventuras dos tempos de escola. Falamos da nossa paixão pela música. Lembramos de como a Música Popular Brasileira (MPB) da época era rica. De um lado, Chico Buarque com versos bem construídos e estilo inconfundível, Milton Nascimento soltando sua voz e suas belas canções nas estradas, o ritmo e o suingue de Gilberto Gil, o carnaval de Morares Moreira, entre outros. Do outro lado Gal Costa, Elis Regina e Rita Lee estavam no auge. Lembramos de vários concertos que assistimos com a nossa turma e também do surgimento do Rock Nacional com as bandas de Brasília. Falamos do Aborto Elétrico, banda que o Renato Russo cantava e que foi o embrião da Legião Urbana. Lembramos do primeiro concerto do Barão Vermelho em Brasília e de um garoto chamado Cazuza que cantava um blues chamado “Down em Mim”. Neste primeiro concerto do Barão, o público não chegava a cem pessoas. Isto muito antes da banda estourar com a música “Pro dia Nascer Feliz”. Já o Paralamas do Sucesso e o seu primeiro concerto para um grande público, presenciei a ansiedade e euforia do Herbert Viana antes de subir ao palco para cantar “Vital e sua Moto”. Depois, o Raul assistiu o Paralamas se consagrando no primeiro Rock in Rio com a música “Óculos”. Falamos de como descobrimos o Tropicalismo em nossas gincanas com teor cultural no Colégio Leonardo da Vinci. Passamos pelo Rock progressivo do Pink Floyd, Jeff Beck e o ACDC do qual o Raul era um super-fã. O Queen, que se apresentou em São Paulo na primeira turnê no Brasil e com a presença marcante de uma platéia de adolescentes de Brasília.

Lembramos dos nossos tempos de movimento estudantil e como discutíamos Trotsky, Lenin e Engels sem realmente entendermos nada. Meus anos vivendo num ex- país comunista só reforçaram que da teoria a prática havia um grande vácuo e que a coisa não funcionava como nos imaginávamos. O mais importante e que só queríamos um mundo melhor e mais justo. Lembramos de pessoas e fatos que marcaram a nossa geração, e de como estudamos em um colégio aberto em que professores e alunos eram amigos, e como estes fatos tiveram grande influência na nossa identidade como homens e cidadãos.

Depois de se graduar em Biologia e seguir uma carreira no magistério, o Raul resolveu seguir o seu sonho através da música. Hoje o Raul é um produtor cultural e um dos mais respeitados baixistas de Brasília.

Reencontrar este amigo só reforça minha teoria de que boas amizades podem resistir ao tempo e a distância. Nosso “happy hour” se estendeu até altas horas, interrompido somente pelos compromissos que teríamos na manhã seguinte.

Um abraço. Seja Feliz!!!

2 comentários:

  1. Legal, Stanley,

    ... e concordo, boas amizades ficam para sempre...

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  2. Arcangela Valle20/01/2011 00:29

    Stanley ... eu desconhecia esta sua veia literária... surpresa prazerosa...Arcangela

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